segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Carta para 2019 / Letter for 2019

Querido 2019,

se alguém tivesse me contado que você seria assim tão intenso, eu provavelmente teria querido passar mais um tempinho ao lado de 2018. Mas não me leve a mal: você também me trouxe risadas e bons momentos! E estes, creio eu, farão mais diferença no futuro do que as lágrimas que você me fez derramar.

Você me deu de presente, por exemplo, a aprovação na faculdade dos meus sonhos. Estou certa de que esse presente foi de Deus, mas te agradeço pela entrega! Logo em seguida, Ele me presenteou com um apartamento fofinho, do jeito que eu queria - obrigada por ter me trazido esse presente também! E isso tudo ainda foi lá no começo da nossa amizade, lembra? Foi ainda antes do meu aniversário, que comemoramos com o Março e os meus amigos. 
As minhas provas começaram quando estávamos conversando mais com a Abril, e aí também foi quando você começou a testar o meu perfeccionismo nas notas. Ainda bem que eu tenho os meus pais, né? Eles estavam sempre lá me ajudando e me lembrando que eu estou em uma espécie de Fórmula 1: os pilotos de lá foram os melhores a vida inteira, provavelmente sendo, na pior das hipóteses, terceiro lugar. Agora muitas vezes eles terminam corridas em décimo quinto, décimo sexto... talvez até vigésimo lugar; mas entre os 20 melhores do mundo!
Deus, sendo bom como sempre, abençoou o primeiro semestre da nossa amizade, apesar de você nunca deixar nada fácil pra mim.
Enquanto você e o Julho conversavam em um ritmo louco, eu tentava aproveitar cada minutinho dos presentes que Deus me deu. Eu gosto do agito e da rotina doida por um tempo, afinal! As semanas no Brasil passaram voando e foram uma mistura de lágrimas de alegria, de tristeza e de muita saudade. Os dias em Israel e na Palestina foram, em seguida, cheios de emoção, experiências novas e reflexões, e, por isso, indescritíveis. Acho que o Julho não me deixou dormir as tais 8 horas ideais nenhuma vez, mas, ao mesmo tempo, me trouxe muita alegria e momentos inesquecíveis.
O Agosto, na promessa de ser mais tranquilo e deixar-me dormir um pouquinho, empolgou-se também e proporcionou uma viagem em família para a Holanda! Foi muito divertido conhecer outro país fofinho como esse.
Depois, voltei para a rotina de morar sozinha e de estudar muitas horas. Setembro, Outubro e Novembro me fizeram estudar, estudar e estudar. Setembro ainda trouxe uma surpresinha pequena, peluda e fofinha no final de um dia péssimo: a Cookie! Quando a vi a primeira vez, quase comecei a chorar de alegria. A nossa pequena e fofinha cadela trouxe alguns sorrisos ao meu rosto nas semanas difíceis e brilho aos meus olhos nos dias tristes. Deus sempre surpreendendo nos presentes...
O Dezembro também estava no ritmo de estudos, mas ele já chegou em um clima mais otimista, tocando músicas natalinas. E Deus também fez com que o Dezembro nos trouxesse amigos queridos, para que tivéssemos um Natal mais feliz. Sabe né, 2019? Dias como o Natal sempre fazem o coração apertar um pouco mais de saudade, principalmente vendo fotos de outras famílias unidas.

E agora... nossa amizade está terminando, para dar lugar ao 2020. Você, assim como os outros anos, é um presentinho de Deus, com o qual Ele me mostra os privilégios que eu tenho.
Obrigada por tantos aprendizados, 2019. Você me mostrou que eu aguento muito mais do que eu imaginava que aguentaria (sou grata, mas eu espero que 2020 pegue mais leve! Hahaha). Você me ensinou a lidar sozinha com os meus problemas muitas vezes, mas também me mostrou quanto necessitada de ajuda eu sou. Ensinou-me a ser independente, e a depender dos meus amigos e familiares. Você me ajudou a entender que muitas vezes, o amor de Deus vai ser claro e forte como o sol de verão; e muitas outras vezes, leve e discreto, como uma brisa. Igual nesse texto aqui:

O Senhor lhe disse: "Saia e fique no monte, na presença do Senhor, pois o Senhor vai passar". Então veio um vento fortíssimo que separou os montes e esmigalhou as rochas diante do Senhor, mas o Senhor não estava no vento. Depois do vento houve um terremoto, mas o Senhor não estava no terremoto.
Depois do terremoto houve um fogo, mas o Senhor não estava nele. E depois do fogo houve o murmúrio de uma brisa suave.Quando Elias ouviu, puxou a capa para cobrir o rosto, saiu e ficou à entrada da caverna. E uma voz lhe perguntou: "O que você está fazendo aqui, Elias?"1 Reis 19:11-13

E, sendo como terremoto ou como brisa, o mesmo Deus que cuidava de Elias nos momentos em que ele precisava, cuida também de mim nos momentos difíceis.

e entrou no deserto, caminhando um dia. Chegou a um pé de giesta, sentou-se debaixo dele e orou, pedindo a morte. "Já tive o bastante, Senhor. Tira a minha vida; não sou melhor do que os meus antepassados."
Depois se deitou debaixo da árvore e dormiu. De repente um anjo tocou nele e disse: "Levante-se e coma".
Elias olhou ao redor e ali, junto à sua cabeça, havia um pão assado sobre brasas quentes e um jarro de água. Ele comeu, bebeu e deitou-se de novo.
1 Reis 19:4-6

E, 2019, assim como eu escrevi no início da nossa amizade na minha agenda, escrevo aqui também o mesmo texto, encerrando-a:

Pois dEle, por Ele e para Ele são todas as coisas. A Ele seja a glória para sempre! Amém.
Romanos 11:36


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Dear 2019,

if someone had told me that you would be that intense, I probably would have wanted to spend a little more time next to 2018. But don't get me wrong: you also brought me laughter and good times! And I think these will make more difference in the future than the tears you made me shed.

You gave me, for example, approval in the university of my dreams. I am sure that this gift was from God, but I thank you for the delivery! Soon after, He gave me a lovely apartment, just the way I wanted - thanks for bringing me this gift too! And this was all still there at the beginning of our friendship, remember? It was just before my birthday, that we celebrated with March and my friends.
My exams started when we were talking more with April, and that was also when you started testing my perfectionism in the grades. It's good that I have my parents, isn't it? They were always there helping me and reminding me that I'm in a kind of Formula 1: the drivers there have been the best all their lives, probably being, at worst, third place. Now they often finish in fifteenth, sixteenth... maybe even twentieth place; but among the top 20 in the world!
God, being as good as ever, has blessed the first semester of our friendship, although you never made anything easy for me.
While you and July were talking at a crazy pace, I was trying to enjoy every minute of the gifts God gave me. I like the excitement and the crazy routine for a while, after all! The weeks in Brazil flew by and were a mixture of tears of joy, sadness, and much missing. The days in Israel and Palestine were then full of emotion, new experiences, and reflections, and therefore indescribable. I think that July didn't let me sleep the 8 ideal hours at all, but at the same time, it brought me a lot of joy and unforgettable moments.
August, in the promise of being more peaceful and letting me sleep a bit, also got excited and provided a family trip to the Netherlands! It was a lot of fun to meet another cute country like this.
Then I went back to the routine of living alone and studying for many hours. September, October, and November made me study, study and study. September still brought a small, fluffy little surprise at the end of a bad day: Cookie! When I saw her the first time I almost started crying with joy. Our cute little dog brought some smiles to my face during the hard weeks and sparkle to my eyes on the sad days. God always surprising us with his presents...
December was also in the rhythm of studying, but he already arrived in a more optimistic mood, playing Christmas songs. And God also made December bring us dear friends, so that we could have a happier Christmas. You know, 2019? Days like Christmas always make our hearts hurt a little bit more, especially when we see pictures of other families united.

And now... our friendship is ending, to give room to 2020. You, like the other years, are a little gift from God, with which He shows me the privileges I have.
Thank you for so much learning, 2019. You have shown me that I can take much more than I thought I could (I am grateful, but I hope 2020 takes it easier! Hahaha). You have taught me how to deal with my problems on my own many times, but you have also shown me how much I am in need of help. You taught me to be independent, and to depend on my friends and family. You have helped me to understand that many times, God's love will be clear and strong like the summer sun; and many other times, light and discreet like a breeze. As in this text here:


The LORD said, “Go out and stand on the mountain in the presence of the LORD, for the LORD is about to pass by.” Then a great and powerful wind tore the mountains apart and shattered the rocks before the LORD, but the LORD was not in the wind. After the wind there was an earthquake, but the LORD was not in the earthquake. 
After the earthquake came a fire, but the LORD was not in the fire. And after the fire came a gentle whisper. 
When Elijah heard it, he pulled his cloak over his face and went out and stood at the mouth of the cave. Then a voice said to him, “What are you doing here, Elijah?” 
1 Kings 19:11-13
And being like an earthquake or a breeze, the same God who cared for Elijah in times when he needed it, cares for me in difficult times as well.


while he himself went a day’s journey into the wilderness. He came to a broom bush, sat down under it and prayed that he might die. “I have had enough, LORD,” he said. “Take my life; I am no better than my ancestors.”

Then he lay down under the bush and fell asleep. All at once an angel touched him and said, “Get up and eat.” 
He looked around, and there by his head was some bread baked over hot coals, and a jar of water. He ate and drank and then lay down again. 
1 Kings 19:4-6

And, 2019, just as I wrote at the beginning of our friendship in my diary, I also write the same text here, closing it:

For from him and through him and for him are all things. To him be the glory forever! Amen.
Romans 11:36




quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Contadora de histórias / Storyteller

UM ANO DE ALEMANHA

"Vocês estão tão bem, né? Com certeza já estão completamente adaptados!" diz o décimo fulano. Ah, as redes sociais! Como são lindas e sorridentes: viagens, paisagens, sorrisos e mais sorrisos. Quem nunca foi tentado a acreditar que alguém tem mesmo a vida perfeita das fotos, que atire a primeira pedra. Mesmo eu, que gosto de ser transparente até nas redes sociais, só quero mostrar as partes legais e bonitas da minha vida - no máximo você encontrará fotos engraçadas com amigos ou fotos menos produzidas da minha família. Obviamente, fotos chorando de frustração sobre meus livros de faculdade, fotos de crises de raiva durante o trabalho ou fotos de mim deitada de exaustão na minha cama não serão encontradas.

E, querido fulano, não posso dizer que você está completamente errado: realmente, eu e minha família estamos bem e já estamos mais adaptados no país da batata. Mas, assim como luto não é superado em um ano e diplomas levam tempo para serem conquistados, uma mudança é cheia de exigências.
Você precisa de coragem para largar sua zona de conforto: a família, os amigos, a casa, a cultura, a comida e tudo o mais que você conhece; para se sentir errado em um lugar novo.
Você precisa de determinação para lembrar-se do porquê da sua decisão quando as crises de saudade e a vontade de desistir chegarem.
Você precisa de otimismo para não afundar nas ondas de incerteza que virão.
Você precisa de resiliência para engolir o choro e tentar de novo quando erra - e você não vai errar pouco, sinto dizer.
Você precisa de ânimo e paciência para achar as coisas certas de novo: lojas que você gosta, comidas parecidas com as que você comia e, até mesmo, novos médicos.
Você precisa de força de vontade (e mais umas doses de paciência) para entender as pessoas e a cultura novas à sua volta e para entender-se também.
Você precisa de persistência quando tudo parecer estar contra você. No final, tudo dá certo, você só precisa aguentar até o final.
Eu poderia continuar pensando e escrevendo uma lista de todos os requisitos de uma mudança, mas você vai descobri-los sozinho se passar por uma =)
Sobretudo, você precisa de apoio de outrem. Fale com amigos, família, outros estrangeiros - pode me escrever também (gabrielleheinrichs@gmail.com).

Portanto, como a mudança já exige demais, parei de dar bola às exigências de outros e comecei a pegar mais leve comigo mesma. Um ano é pouco tempo, afinal: os dias, semanas e meses passam voando; e uma mudança é uma carga grande para lidar.
"Sentir-se em casa" envolve muito mais coisas do que, realmente, uma casa e um endereço. É difícil explicar a sensação de ter meu coração partido no momento em que vi a minha casa no Brasil de novo durante as duas semanas que estive lá, ou entender as lágrimas que não consegui controlar seja quando entrei no meu antigo quarto, seja quando chegou a hora das despedidas. Também é difícil de prever quantos anos passarão até que eu consiga ir e voltar do Brasil sem chorar ou até que eu me identifique completamente com a cultura alemã.

Em todos os momentos desse um ano que passou desde que eu entrei no avião, entretanto, Deus tem cuidado de mim e da minha família e tem me tornado uma contadora de histórias - assim como diz essa linda música da Morgan Harper Nichols que uma amiga me enviou. Além disso, com todas essas experiências emocionalmente muito exigentes, Ele tem me lembrado que a minha casa será, para sempre, o colo dEle; indiferentemente das minhas coordenadas no globo.

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ONE YEAR IN GERMANY

"You guys are so good, huh? I'm sure you're already fully adapted," says the tenth guy. Oh, the social networks! How beautiful and smiling they are: trips, landscapes, smiles, and more smiles. Who has never been tempted to believe that someone really has the perfect life of the photos, let throw the first stone. Even I, who like to be transparent even in social media, just want to show the nice and beautiful parts of my life - maybe you will find funny photos with friends or less produced photos of my family. Obviously, photos crying out in frustration over my college books, photos of angry crises at work or photos of me lying exhausted in my bed will not be found.

And, dear guy, I can't say you're completely wrong: really, my family and I are fine and we're already better adapted in the potato country. But just as grief is not overcome in a year and diplomas take time to be earned, moving to another country is full of demands.
You need the courage to leave your comfort zone: family, friends, home, culture, food and everything else you know; to feel wrong in a new place.
You need determination to remember why you made your decision when the crises of homesickness and the will to give up come.
You need optimism not to sink into the waves of uncertainty to come.
You need the resilience to swallow the tears and try again when you make a mistake - and you won't make just a few, I'm sorry to inform.
You need the energy and patience to find the right things again: stores you like, food that looks like the ones you ate, and even new doctors.
You need willpower (and a few more doses of patience) to understand the new people and culture around you and to understand yourself too.
You need persistence when everything seems to be against you. In the end, everything works out, you just have to hold on until the end.
I could go on thinking and writing a list of all the requirements of moving, but you'll find out for yourself if you go through it =)
Above all, you need someone else's support. Talk to friends, family, other foreigners - you can also write to me (gabrielleheinrichs@gmail.com).

So, as moving is already too demanding, I stopped caring about the demands of others and started to take it easy on myself. A year is a short time, after all: days, weeks and months fly by; and moving is a big burden to deal with.
"Feeling at home" involves much more than just a house and an address. It's hard to explain the feeling of having my heart broken when I saw my home in Brazil again during the two weeks I was there, or to understand the tears I couldn't control neither when I entered my old room nor when it was time for goodbyes. It's also hard to predict how many years will pass before I can travel to and back from Brazil without crying or until I fully identify with German culture.

In all the moments of this year that has passed since I entered the plane, however, God has taken care of me and my family and has been making me a storyteller - just like this beautiful song (by Morgan Harper Nichols) a friend sent me describes. Also, with all these emotionally very demanding experiences, He has reminded me that my home will forever be in His hand; regardless of my coordinates on the globe.


28.08.2018

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Um convite a mudar de ritmo / An invitation to change pace

Informação especial: meus textos, a partir de agora, serão todos em inglês e português! Versão em inglês feita em partes com ajuda do tradutor, por motivos de agilidade hahaha.

Special information: my texts, from now on, will all be in English and Portuguese! English versions will be written with the help of the translator, for reasons of agility hahaha.

Eu amo viajar. Amo o som das rodinhas das malas no chão, o coração batendo mais forte e o agito das estaçōes ou aeroportos. Esse último ponto, porém, fez-me pensar há algum tempo e tornou-me mais observadora: em uma estação de trem, por exemplo, é muito claro o ritmo em que vivemos. Todos andam apressados, a passos largos, e parecem constantemente atrasados - mesmo que não estejam. Celulares nas mãos, fones nos ouvidos. A existência dos outros é totalmente ignorada - a não ser a das pessoas que andam devagar na sua frente. O tempo máximo de parada nesse ritmo louco é apenas o suficiente para comprar um copo de café. O mundo se torna um borrão enquanto você anda rapidamente no meio do agito, isolado na sua bolha com a música alta nos ouvidos, a mão segurando firmemente a mala e a sua cabeça em outro lugar - os problemas do trabalho, as coisas por fazer em casa ou as compras do mercado, talvez.

Eu não me excluo desse grupo de pessoas: parece que o mundo nos deixou assim, e esse é o ritmo natural das coisas. Até que percebi que esse também é o ritmo errado de viver. Comecei a admirar os casais que param no meio do agito para um último abraço. Comecei a reparar no cenário à minha volta e a parar com mais calma para comprar um café - ninguém morre de sorrir para o atendente e desejar um bom dia de volta. Comecei a seguir o exemplo da minha mãe e parar para tirar fotos de flores, mesmo que eu esteja na correria da faculdade. Também diminui a quantidade de fotos quando estou em um lugar ou evento legal para aproveitar - o que vale de verdade é a experiência, e as fotos do celular nunca ficarão tão boas como a realidade mesmo, né?
Aprender a viver mais devagar e mais intensamente é uma experiência muito legal, e às vezes muito difícil também: sempre tem o risco de as pessoas te acharem trouxa. Mas eu não ligo, porque sempre achei essa definição errada. Aliás, fiquei indignada quando ser uma pessoa autêntica virou sinônimo de ser trouxa.

Ser honesto e devolver troco errado? Ô, trouxa! Era vantagem ficar com troco a mais...
Ser compreensivo e perdoar alguém? Tá louco, mano! Isso aí foi imperdoável, tem mesmo é que se vingar...
Ser amoroso e dar uma segunda chance para outra pessoa? Como assim?! Ninguém merece segundas chances, deixa de ser trouxa!

Percebi que, no fundo, ninguém quer ser "trouxa", mas todos querem os "trouxas" por perto. Porque, no fim, os trouxas somos nós, os idealistas. Os autênticos. Os honestos. Os empáticos. Os calmos. Os pacificadores. Os que perdoam. Os esperançosos. Os que confiam. Os obedientes. Os românticos.

Então, com esse texto, te convido a pausar o agito e viver com calma. E nesse novo ritmo, aproveite para ser trouxa.
Abraços!

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I love to travel. I love the sound of the luggage wheels on the floor, the heart beating harder and the buzz of stations or airports. That last point, however, made me think about it some time ago and made me more observant: in a train station, for example, the pace at which we live is very clear. Everyone is in a hurry, at a fast pace, and they seem to be constantly late - even if they are not. Mobile phones in their hands, earphones in their ears. The existence of others is totally ignored - except for the people who walk slowly in front of them. The maximum stopping time at this crazy pace is just enough to buy a cup of coffee. The world becomes a blur as you walk quickly through the rush, isolated in your bubble with the loud music in your ears, your hand firmly holding your bag and your head somewhere else - the problems of work, things to do at home or grocery shopping, perhaps.

I don't exclude myself from this group of people: it seems that the world has left us like this, and that's the natural rhythm of things. Until I realized that this is also the wrong rhythm of living. I began to admire the couples who stop in the middle of the rush for one last hug. I began to notice the scenery around me and to stop more calmly to buy a coffee - no one dies from smiling at the attendant and wishing him a good day back. I started to follow my mother's example and stop to take pictures of flowers, even if I'm on a rush to college. I also decreased the number of photos when I'm in a cool place or event in order to enjoy it - what really matters is the experience, and the photos on the cell phone will never get as good as the reality, right?

Learning to live slower and more intensely is a very nice experience, and sometimes very difficult too: there's always the risk of people thinking you're a stupid person. But I don't care, because I've always found that definition wrong. In fact, I was indignant when being an authentic person became synonymous with being dumb.

Being honest and returning wrong change? Oh, dumb! It was an advantage to have more money...
Be understanding and forgive someone? You're crazy, bro! That was unforgivable, you have to take revenge!
Be loving and give someone else a second chance? What??? Nobody deserves second chances, stop being stupid!

I realized that, deep down, nobody wants to be a "dummy", but everyone wants the "dummies" around. Because, in the end, we are the stupid ones: the idealists. The authentic ones. The honest ones. The empathic. The calm ones. The peacemakers. Those who forgive. The hopeful. Those who trust. The obedient. The romantics.

So, with this text, I invite you to pause the agitation and live calmly. And in this new rhythm, take the opportunity to be stupid.
XOXO



terça-feira, 16 de abril de 2019

Eles também são pessoas / They're people too

Uma coisa que eu aprendi com a mudança, é de que estamos errados em muitas coisas. Mudar-se é basicamente aceitar que você está errado com frequência e dispôr-se a mudar!

Como você já sabe, eu não passei na prova do KIT em setembro/2018. Depois de uma troca de emails com o pessoal da coordenação que já tinha me ajudado anteriormente, descobri que poderia me increver para uma curso de matemática pré-faculdade: obviamente me inscrevi, e as aulas começaram no meio de outubro/2018. Esse post, entretanto, não é sobre isso.

Vamos ao que interessa:
No segundo dia de aula do curso, conheci a Henna*. Ela entrou na sala e, enquanto escolhia um lugar, sorri para ela, que, após 5 segundos de hesitação, sorriu de volta e escolheu o lugar ao meu lado. Em alguns minutos de conversa eu já percebi que seríamos amigas. Conforme os dias de aula passavam, conversávamos mais e eu descobria detalhes sobre a vida dela: ela veio do Afeganistão, tem uma família maior do que a minha, gosta de ler, fala persa, quer cursar Informática... e foi acolhida pelo governo alemão como refugiada. Quando ela me contou sobe a saída do Afeganistão e vinda para a Alemanha, foi como um soco no estômago. De repente, todas as notícias que eu já vira sobre refugiados na Europa passaram na minha mente, e eu não conseguia acreditar que os terrores que eu ouvi nos jornais brasileiros fossem uma realidade tão perto da minha, vividos pela minha nova e encantadora amiga afegã. Eu não sabia como reagir: não sabia se chorava, se a abraçava, se deveria responder algo ou ficar em silêncio; porque minha cabeça zunia pensando "naqueles refugiados na Europa" que, tantas vezes, eu vira na TV e sentira compaixão, mas que estavam tão longe de mim...

Em uma das vezes que eu contava sobre a Henna para os meus pais, minha mãe falou "nossa, às vezes a gente esquece que são pessoas normais, como a gente, lá nesses países, né?"; e, caramba, como a minha mãe tem razão: presos no nosso mundo, insensíveis às notícias terríveis que vemos todos os dias, esquecemos que o Afeganistão tem pessoas, a Síria tem pessoas, Omã tem pessoas, o Equador tem pessoas, Moçambique tem pessoas, Uganda tem pessoas, Israel tem pessoas, a Palestina tem pessoas...
Enquanto a Henna me contava sobre o seu país e a sua família, tantas vezes parecia que ela falava do meu país e da minha família! Frequentemente eu me pegava dizendo "sério??? No Brasil é igualzinho!", "vocês também? A gente sempre faz isso na minha família!" e sentia-me tão identificada com ela que eu nunca diria que o Brasil e o Afeganistão ficam em lados opostos do globo.

A Henna, porém, foi só uma parte do processo de tirar os óculos da realidade que eu conhecia para conhecer uma totalmente nova.

Em uma das minhas idas e vindas do curso de matemática para casa (quase uma hora de viagem), conheci Lina, uma moça sentada ao meu lado no trem. Ela escrevia concentrada em um caderno, e fiquei observando-a atentamente, ao que ela, meio sem graça, perguntou se eu entendia árabe. "Não,", respondi, "só acho a escrita muito bonita. As palavras parecem desenhos!". Ela riu, e começamos a conversar mais: ela voltava de uma entrevista de emprego em outra cidade; perguntei sobre a área de trabalho. Descobri que ela largou a faculdade de medicina na Síria por causa da guerra para vir à Alemanha, e que ela queria muito na trabalhar na área de turismo aqui. "Meu sonho era ser aeromoça,", disse, um pouco chateada, "mas as companhias aéreas não permitem que eu use o lenço na cabeça"; nesse momento, uma parte do meu coração se partiu: eu não fazia ideia de que muçulmanas não podem ser comissárias de voo! Por fim, ela também me contou que já era casada e com filhos, e conversamos um pouco sobre nossas famílias.
Nesse dia, saí do trem novamente chocada com as diferentes realidades que se encontravam ao meu lado, muito feliz e com as mãos cheirosas - Lina passou um perfume árabe na minha mão para que eu sentisse o cheiro e, sinceramente, o arrependimento de não ter tirado uma foto do vidrinho nunca vai passar! Hahaha

O que dizer então, do super simpático tutor de matemática do curso que virou meu amigo? Omar cursa Informática no KIT e era o responsável pelas "aulas de reforço" de matemática. Começamos a conversar mais, e adivinhem só? Ele também fala árabe (qualquer idioma ocidental vira fichinha perto do que meus novos amigos falam, gente hahaha) e também veio da Síria. A sua família está espalhada em vários países, e ele também me contou sobre a realidade pré- e pós-guerra. É muito difícil pensar que tudo isso (a guerra) ainda é uma realidade em 2019 e que meus bisavós passaram pelas mesmas coisas há alguns anos. É muito difícil pensar que uma pessoa "normal", assim como eu, que gosta de matemática, que teve um bichinho de estimação, que gosta de ler, que visitou a praia, ou qualquer outra coisa que normalmente fizemos ou fazemos na vida, já tenha tido que passar pela realidade da guerra.

Acho que eu poderia escrever um livro sobre o assunto, porque nem falei dos meus outros amigos:
Carlos e David, do Equador, que me fizeram perceber que não conheço nem mesmo a realidade da América do Sul direito! Apesar de eu já ter mais realidades em comum com eles do que com outros - eles sempre me fazem rir com memes e entendem minhas brincadeiras (brincar não é o forte dos alemães...). Ah, claro, o Portunhol também ajuda muito nas conversas quando não sabemos as expressões em alemão!
Berdi, o menino do Turcomenistão, que é sempre gentil e engraçado, além de inteligente. Quando eu pensava no Turcomenistão antes de conhecê-lo, gente? Nunca! Era só "um dos países lá que termina em ÃO" ou o país com T no jogo de Stop. Agora, entretanto, eu sei que as pessoas de lá falam turcomeno, que eles tem comidas que parecem muito boas (hahaha) e que a ditadura lá, infelizmente, está quase tão ruim quanto na Coreia do Norte.
Na minha sala do Studienkolleg também tem gente da Indonésia, Índia, China, Egito, Armênia, Coreia do Sul, Irã, Vietnã...

E assim, querido leitor, a cada dia mais, eu aprendo quanto eu estava errada ao enxergar apenas a minha realidade. A cada dia mais, deixo de ver estereótipos e vejo pessoas, sentimentos, sonhos, sorrisos!
Estudar com tantos estrangeiros é uma realidade incrível, e fico muito feliz de estar nela - no fundo, queria que todo mundo pudesse ter uma experiência assim na vida!


Por fim, para você que faz piadinhas sobre refugiados, muçulmanos, estrangeiros ou "afins": cuidado com o que você fala, principalmente se eu estiver por perto. Se antes eu já achava esse tipo de "brincadeira" uma imensurável falta de noção, agora elas são uma ofensa pessoal aos meus amigos! E ninguém é cruel com os meus amigos, sabe? #ficaadica

*Nome alterado para proteger a história da minha amiga :-)

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English version for my foreign friends (hopefully correct)

One thing I've learned from the moving is that we're wrong about a lot of things. Moving is basically accepting that you are often wrong and being willing to change!

As you already know, I did not pass the KIT exam in September/2018. After an email correspondence with the coordination staff who had already helped me before, I discovered that I could enroll for a pre-college math course: obviously I enrolled, and classes started in the middle of October/2018. This post, however, is not about that.

Let's get to the point:
On the second day of class, I met Henna*. She entered the room and, while she was choosing a place, I smiled at her, who, after 5 seconds of hesitation, smiled back and chose the place beside me. In a few minutes of conversation, I realized that we would be friends. As the class days passed, we talked more and I discovered details about her life: she came from Afghanistan, has a bigger family than mine, likes to read, speaks Persian, wants to study Computer Science... and was welcomed by the German government as a refugee. When she told me about her departure from Afghanistan and her arrival in Germany, it was like a punch in the stomach. Suddenly, all the news I had seen about refugees in Europe passed through my mind, and I could not believe that the terrors I heard in Brazilian newspapers were a reality so close to mine, lived by my new and charming Afghan friend. I didn't know how to react: I didn't know if I cried, if I hugged her, if I should answer something or be silent; because my head buzzed thinking "about those refugees in Europe" who, so often, I had seen on TV and felt compassion, but who were so far away from me...

In one of the times that I told my parents about Henna, my mother said "gee, sometimes we forget that they are normal people, like us, there in those countries, right?"; and, damn, since my mother is right: imprisoned in our world, insensitive to the terrible news we see every day, we forget that Afghanistan has people, Syria has people, Oman has people, Ecuador has people, Mozambique has people, Uganda has people, Israel has people, Palestine has people...

While Henna told me about her country and her family, it often seemed as if she was talking about my country and my family! I often found myself saying, "Really? In Brazil it's the same", "you too? We always do that in my family" and I felt so identified with her that I would never say that Brazil and Afghanistan are on opposite sides of the globe.

Henna, however, was only one part of the process of taking the glasses out of the reality I knew in order to get to know a totally new one.

On one of my trips home from the math course (almost an hour's drive), I met Lina, a girl sitting next to me on the train. She was writing concentrated in a notebook, and I watched her attentively, so she, a little shy, asked if I understood Arabic. "No," I replied, "I just find the writing very beautiful. The words are like drawings". She laughed, and we started talking more: she was coming back from a job interview in another city; I asked about the work area. I found out that she quit medical school in Syria because of the war to come to Germany, and that she really wanted to work in tourism here. "My dream was to be a stewardess," she said, a little upset, "but the airlines won't let me wear my veil"; at that moment, a part of my heart broke: I had no idea that Muslims can't be flight attendants! Finally, she also told me that she was already married and had children, and we talked a little bit about our families.
On that day, I left the train again shocked by the different realities that were beside me, very happy and with perfumed hands - Lina put an Arab perfume on my hand so that I could smell it and, sincerely, the regret of not having taken a picture of the little glass will never pass! Hahaha

And what about the super nice math tutor from the course who became my friend? Omar is a Computer Science student at KIT and was responsible for math tutoring. We started talking more, and guess what? He also speaks Arabic (any Western language becomes very easy close to what my new friends speak, hahaha) and also came from Syria. His family is spread across several countries, and he also told me about the pre- and post-war reality. It is very difficult to think that all this (the war) is still a reality in 2019 and that my great-grandfathers went through the same things a few years ago. It's very hard to think that a "normal" person, like me, who likes math, who had a pet, who likes to read, who visited the beach, or anything else that we normally do in life, has had to go through the reality of war.

I think I could write a book on the subject because I didn't even mention my other friends:

Carlos and David, from Ecuador, who made me realize that I don't even know the reality of South America right! Although I already have more realities in common with them than with others - they always make me laugh with memes and understand my jokes. Ah, of course, Portunhol also helps a lot in conversations when we don't know the expressions in German!

Berdi, the boy from Turkmenistan, who is always kind and funny, as well as intelligent. When I was thinking about Turkmenistan before I met him, people? Never! It was just "one of the countries there that end in AN" or the country with T in the Stop Game (it's a words game in Brazil). Now, however, I know that the people there speak Turkmen, that they have foods that look very good (hahaha) and that the dictatorship there, unfortunately, is almost as bad as in North Korea.
In my Studienkolleg class, there are also people from Indonesia, India, China, Egypt, Armenia, South Korea, Iran, Vietnam...

And so, dear reader, every day more, I learn how wrong I was when I saw only my reality. Every day more, I stop seeing stereotypes and I see people, feelings, dreams, smiles!
Studying with so many foreigners is an incredible reality, and I am very happy to be in it - deep down, I wish everyone could have such an experience in life!


Finally, for you who make jokes about refugees, Muslims, foreigners or alike: be careful what you say, especially if I'm around. If I used to think that kind of "joke" was an immeasurable lack of awareness, now it's a personal offense to my friends! And nobody is cruel to my friends, you know?

*Name changed to protect my friend :-)





sábado, 23 de março de 2019

Mudança - O que ninguém conta

Sim, eu sei que esses títulos normalmente são só para chamar a atenção, mas, nesse caso, quero realmente ser transparente contigo e dizer-te coisas que ninguém tinha me falado sobre mudar de país.


Você vai sentir saudades. 
De verdade. Não a saudade que você sente de casa quando viaja de férias ou a saudade dos seus amigos que moram em outra cidade - acredite, já senti dessas também, e todas são válidas -, mas não é esse tipo de saudade. É tão forte que vira física: você sente o coração doer literalmente, o estômago embrulhar e a garganta fechar; às vezes, parece que alguém arrancou um órgão de dentro do seu corpo pelo tamanho do vazio que você sente. 
Nas primeiras semanas aqui, eu só chorava. Quando desligava as chamadas por Skype com os meus amigos, chorava pela falta que eles faziam; não conseguia ver nenhum vídeo ou foto deles ou da minha igreja; não conseguia falar deles para os meus pais, porque se a minha resposta fosse mais longa do que "estão bem", minha voz falharia e os olhos estariam cheios d'água; não conseguia passar um fim de semana sem chorar pensando que eu poderia estar com meus amigos andando em um shopping ou conversando no culto de jovens da igreja; não olhava nenhuma foto da minha casa no Brasil... Eu nunca tinha sentido nada igual antes, e nunca fui a pessoa que fica chorando de saudades o tempo todo (apesar de senti-la), até a mudança. 
Descobri, agora que estamos completando um semestre longe do Brasil, que a saudade nunca passa, mas a gente aprende a se conformar. A gente ensina nosso próprio coração a lidar com a falta de pessoas, de comidas, de lugares: o vazio continua lá, mas aprendemos a viver com uma parte nossa faltando. E a conformidade vai acalmando nosso coração até que as crises de choro passem de 5 vezes por semana para poucas no mês...

Você vai se sentir incompreendido.
A não ser que você converse com outras pessoas que já mudaram de país, ninguém vai te entender totalmente. Passei por várias crises de "ninguém me entende!", intercaladas com as de saudades - frequentemente eu nem sabia se estava triste ou com raiva (ambos?). 
Não importa quanto seus amigos tentem - não é nem mesmo culpa deles! -, eles não entenderão o que você sente e passa. Mudar de país é uma experiência única e incomparável! Então:
  • se você é a pessoa que se mudou: tenha paciência - você vai achar pessoas que te entendem! E os seus amigos não estão dando conselhos-que-não-se-aplicam de propósito =)
  • se você nunca se mudou, mas tem amigos que se mudaram: por favor, não diga que você entende como é difícil porque já mudou de cidade (eu já mudei de cidade também, e, acredite, é bem diferente) e também não diga que você "não entende porque a pessoa chora de saudades", já que você "nunca foi do tipo que sente saudades" (sendo a sua experiência de saudades uma semana longe dos pais...)

Você também vai se sentir sozinho.
Pelos dois motivos acima, já dá pra entender uma parte desse sentimento. Além disso, muitos amigos vão sumir quando você precisar deles - mudar de país também é uma baita prova de fogo para descobrir quem realmente está com você; e fazer novos amigos no novo lugar onde você está nem sempre é tão rápido quanto esperamos...
Claro, também tem a parte da adaptação, que você vai ver no próximo tópico. Ah, sentimentos e suas crises: sempre um combo, nunca por motivos avulsos!

Prepare-se para alguns micos - e broncas.
Principalmente se você está se mudando para um país como a Alemanha, onde a honestidade e objetividade reinam. Os micos já eram esperados: estrangeiros que não pagam mico não são estrangeiros, certo?!
As broncas, porém, nos chateavam e muitas vezes também eram motivo de choro: de repente, existem regras totalmente novas, das quais nunca tínhamos ouvido falar, um modo de se comportar e de falar diferente, um ritmo de vida diferente. A nossa separação do lixo estava errada (caramba, que país com regra para lixo, sério), o jeito de andar de bicicleta, o jeito de fazer compras, até mesmo o jeito de resolver contas de matemática! E, como eu disse acima, por aqui a honestidade e objetividade reinam: os alemães não hesitam em te dar uma bronca se virem algo errado, não interessa se te conhecem ou não.
A gente acaba acostumando com todas essas patadas e regras dos alemães, mas ainda não descobri quanto tempo morando aqui eu preciso para parar de levar broncas inesperadas, hahaha.

Prepare-se para a dificuldade e tenha com quem contar.
Sim, agora já estou muito mais tranquila e consigo te contar tudo isso calmamente. Entretanto, como você leu, uma mudança é muuuito mais difícil do que parece. Passei, inclusive, por depressão leve nos primeiros meses aqui - o desânimo pelo peso da situação era tão grande que a vontade de acordar era a cada dia menor (enquanto você está dormindo, não está chorando, nem sentindo saudades, nem decepcionada com quem sumiu, nem lembrando que não passou na prova de primeira, certo?); e, acredite, isso é muito normal entre as pessoas que se mudam! 
Por isso, encontre pessoas de apoio, que vão te animar, te dar dicas práticas de como sair dessa ou simplesmente vão ouvir seus desabafos. Frequentemente, você vai precisar de pessoas que sejam suas muletas, até que sua força para ficar em pé volte completamente =)
Se você não tem ninguém com quem contar, pode me escrever também, que estou sempre disponível para ouvir: gabrielleheinrichs@gmail.com

Por fim, ficam os meus agradecimentos a todos os amigos maravilhosos que me ajudaram quando precisei e que não sumiram quando me mudei. Vocês são demais, e definitivamente tem um lugar especial no meu coração! 

Para você que já se mudou: parabéns, guerreiro! Você com certeza tem uma história incrível para contar - meu email está aberto para ela também, amaria te ouvir.

Para você que quer se mudar: coragem! Você vai precisar. E não desista dos seus sonhos - as melhores coisas são difíceis de alcançar =D

Os próximos posts serão recheados de alegria e honestidade também - não desanima, não! O objetivo do post não era ser negativo, apenas realista, hahaha.
Abraçosss



domingo, 17 de fevereiro de 2019

Mudança - Segunda semana

Ainda passaria o domingo e a segunda sozinha no apartamento vazio.
No domingo, acordei cedinho e fui à padaria - tinha esquecido que nada abre aos domingos na Alemanha (exceto as padarias, durante algumas horinhas...). Consequentemente, percebi que o meu almoço seria pão, já que eu só tinha comprado o meu almoço de sábado (cup noodles, que comi com uma colher de chá porque também não comprei garfo!). Na hora certa, a tia Lu me mandou uma mensagem perguntando se eu gostaria de almoçar com ela (obrigada, tia Lu!). Então, pude comer arroz, salada e camarões com molho de tomate <3
Além disso, ela me emprestou duas luminárias, o que significou uma noite de domingo com mais luz do que a lanterna do celular pode fornecer!
Durante a tarde, a Julia, uma das amigas que fiz no intercâmbio em 2014, veio até o apartamento e pude passar um tempo conversando com ela, além de podermos comer os lanchinhos que eu tinha - pãezinhos e frutas, hahaha.

Na segunda, decidi limpar o apartamento inteiro mais uma vez (com o belo canteiro de obras em tudo em volta do prédio, era impossível evitar a poeira). Fui ao mercado de novo - precisava de produtos de limpeza e mais comida, claro! Sem geladeira, não conseguia comprar coisas para mais de dois dias de cada vez.
Comecei a pegar as coisas: panos, limpa vidros, limpa piso, produto para banheiro... e aí a minha cestinha já estava pesada demais para eu aguentar levar tudo pra casa. "Ok,", pensei, "o que a Mami faria?". Tirei os 5 produtos de limpeza diferentes de dentro da cesta e troquei por um só: vinagre.
#ficaadica tudo na vida você pode limpar com vinagre e detergente!
Como eu já tinha esponjas e o detergente, só precisava do vinagre e dos panos. Para dar um charme, comprei um perfume para tecidos - para as cobertas, colchões e toalhas novos - e um cheirinho (não sei como chama!) pra deixar no banheiro. Queria que o apartamento estivesse brilhando quando os meus pais e irmãos chegassem!
Voltei e arrumei tudo. Descobri, inclusive, quanto maravilhoso é limpar um apartamento vazio! Sem móveis fica tudo mais fácil e rápido. Perfumei os colchões e deixei os banheiros brilhando também.
A desvantagem de a limpeza ser relativamente fácil, é que o dia pareceu se arrastar: a ansiedade bateu forte, tanto pela chegada da minha família, quanto pela prova que eu teria no dia seguinte de manhã.

Tentei continuar me distraindo fazendo coisas aleatórias, organizando as poucas coisas que tinha, conversando com amigos... Finalmente, às 20h, minha família chegou! Eu nunca tinha sentido tanta saudade em uma semana só. Na semana que passei sozinha, minha alegria e consolo era tomar banho e usar a toalha que a Mami colocara na minha mala: tinha cheirinho de casa <3
Apesar de ter sido uma semana difícil para mim, também aprendi muitas coisas e percebi quanto eu já sei me virar sozinha; mas isso eu conto melhor em outro post :)
Depois da chegada dos meus eternos companheiros de aventuras, eles deram uma olhada no apto, fomos comer e passamos a noite em um hotel - o apartamento só estava equipado para mim, hahaha.
E, como ninguém precisa descansar depois do voo de 12 horas, correria com malas e fortes emoções, acordamos às 6h na terça para irmos a Karlsruhe! Eu teria minha prova lá de manhã.
Chegamos no KIT, e, enquanto eu fazia a prova, minha família foi comprar coisas que precisaríamos no apartamento.
Na terça de noite, já dormimos todos no apartamento, um pouco mais equipados, mas ainda sem móveis, hahaha.

Mais detalhes e fotos de como nosso apartamento foi de vazio para mobiliado e decorado você vê em um dos próximos posts!

Para quem ficou curioso e/ou ainda não sabia: eu não passei na prova de faculdade em setembro. Embora eu tenha chorado bastante naquela semana, sei que Deus sempre tem os melhores planos, e Ele definitivamente sempre acerta nas Suas decisões! Tudo que aconteceu e tudo que aprendi nas semanas seguintes você vai ficar sabendo por aqui :D

Beijos!



Esse tinha sido o almoço de sábado. Valorizem os talheres que vocês têm, galera! Hahaha

A luminária que a tia Lu me emprestou no domingo. Eu tinha luz para o domingo e a segunda, uhul!

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Mudança - Primeiros dias

Como você já leu no post anterior, viajei sozinha, uma semana antes dos meus pais.
A Felicitas foi me encontrar em Frankfurt e viajamos de trem até Offenburg, onde a mãe dela foi nos encontrar. A presença da Feli foi mais que bem-vinda porque
1) não precisei andar pelo aeroporto enorme sozinha;
2) tinha mais alguém para levar as malas - cada uma levou uma;
3) encontrei minha amiga!
Fomos até a casa dela, em uma "vila" perto de Offenburg, comi e tentei descansar.
O primeiro dia (o que cheguei, quarta, e o seguinte), foram péssimos devido ao fuso horário de 5 horas. Fiquei acordando de madrugada, tinha muito sono na hora do almoço e ficava acordada de noite.
Na sexta, já estava me sentindo bem melhor e decidi ir com a Feli ao apartamento da minha família, no centro de Offenburg.
De manhã, comprei toalhas e cobertas (me senti A adulta que mora sozinha). Depois almoçamos e fomos ao apartamento, onde o dono já me deu as chaves. Tia Lu me emprestou produtos de limpeza, então eu e Feli passamos a tarde fazendo faxina no apartamento vazio! Meu pai também tinha pedido um colchão pela Amazon, então deixei o colchão descansando: ele vinha enrolado a vácuo, então precisava ficar "se espreguiçando" por 24 horas, hahaha.
A sexta-feira já estava com um clima estranho o dia todo, ora com garoa, ora com um sol fraco. Óbvio que, assim que Feli e eu demos três passos para fora do apartamento, a chuva decidiu vir com tudo! Tivemos que andar quase um quilômetro na chuva até o ponto de ônibus. Voltamos para a casa dela encharcadas, e rindo, claro.
Sábado, por uma mudança de planos que fiz com os meus pais, fui ao apartamento para ficar lá. Uma amiga da família me deu carona (sem condições de pegar ônibus com duas malas que eu não conseguia carregar sozinha) da casa da Feli até o apartamento. Cheguei lá, deixei as malas, peguei a mochila e saí: precisava fazer compras!
Fui até o centro e passeei por algumas lojas, resolvendo coisinhas. Em seguida, almocei, atenção: pão com linguiça de uma barraquinha! Isso mesmo, senhoras e senhores, eu comprei almoço em uma barraquinha na rua!
*Quem me conhece vai entender a dimensão do absurdo que isso significa para mim, hahaha.
*Pão com linguiça é a versão alemã de cachorro-quente.
Continuando, fui até a loja da Telekom, a empresa que forneceria a internet para o nosso prédio. Conversa vai, conversa vem, por falta de alguns dados o vendedor não podia fechar o contrato comigo ainda, e demoraríamos a ter Wi-Fi no apartamento. Pensando no pesadelo de usar o 3G-câmera-lenta do chip da Memomad e no meu celular que estava com o chip inativo (o chip alemão não começava a funcionar instantaneamente), soltei um "tá bom, a Wifi pode demorar, mas eu preciso de internet agora. Que opções você tem?", o vendedor, rindo, disse que precisava ver e foi para os fundos da loja. Voltou com uma caixinha na mão e explicou que eles tinham um "mini roteador" que funcionava com chip, e tinha 30 MB de internet. Aceitei na hora! Afinal, Wi-Fi é uma necessidade básica, hahaha.
Por último, precisava ir ao mercado. Comprei frutas, pão, manteiga, Nescafé, leite, xícara, faca, colher... tentei pensar em tudo que eu precisaria e que aguentaria fora da geladeira, pois a mobília do apartamento contava apenas com um colchão e um micro-ondas!
*O micro-ondas tínhamos comprado na viagem em dezembro e deixado numa mala que ficou com a tia Lu.
Andando pelas lojas, mercados (fui até num posto!) descobri uma coisa absurda: nenhuma das empresas citadas ali vendia luminárias ou lanternas! Nem mesmo daquelas pequenas...
Pois bem, eu já não aguentava mais andar, decidi ir para casa. Em um caminho de 800m do mercado até o apartamento, descobri 20 jeitos diferentes de carregar sacolas grandes e pesadas, hahaha. A felicidade do dia foi chegar ao apartamento, tirar os tênis e sentar no chão do corredor vazio para comer o picolé já meio derretido que eu comprara. Percebi, de verdade, que nossas noções de felicidade mudam a cada dia e que os momentos realmente valorosos e inesquecíveis são esses flashes de cinco minutos!
Por fim, organizei as coisas que comprara, lavei as louças e as frutas na pia do banheiro, arrumei meu colchão, tomei banho, jantei meu pão com manteiga e aproveitei o resto da noite com o silêncio inacreditável de um apartamento vazio e a lanterna do meu celular.
Os outros dias, dessa loucura que foi a chegada aqui, eu te conto como foram no próximo post!
Bye <3


*Caso você não tenha visto meus stories no Insta, também fiz videozinhos daqui quando cheguei! Vem ver: https://youtu.be/pwaPHAhrCN8


Registro de um momento de felicidade (o picolé já tinha acabado)

Minha companhia pelos primeiros dias - muitas coisas de construção!

O almoço "exótico"

Modem fofinho que me conectou com o mundo de novo, depois da chegada aqui!

Usual carinha de choro de despedidas